Você já terminou de almoçar, está fisicamente satisfeito, mas alguns minutos depois sente vontade de comer um chocolate? Ou passa em frente a uma padaria e, mesmo sem estar com fome, sente aquele impulso quase automático de comprar alguma coisa?
Talvez você esteja pensando: “Mas eu não estava com fome”. E é justamente aí que começa uma discussão interessante sobre comportamento alimentar. Nem toda vontade de comer nasce da necessidade de energia. Nosso cérebro também responde ao prazer, às memórias, aos estímulos do ambiente e às recompensas associadas aos alimentos.
Esse fenômeno é conhecido como fome hedônica. O conceito descreve a motivação para buscar alimentos pelo prazer que eles proporcionam, mesmo quando o organismo não está sinalizando uma necessidade energética. Isso não significa que exista algo errado com a pessoa ou que ela simplesmente não tenha controle. O comportamento alimentar é resultado de uma combinação complexa entre mecanismos biológicos, experiências, ambiente e contexto.
Imagine uma mesa de reunião com café, biscoitos e chocolates. Ninguém entrou naquela sala necessariamente com fome. Ainda assim, ao longo da conversa, alguém pega um biscoito. Outra pessoa acompanha. Em determinado momento, aquele alimento deixa de ser apenas alimento e passa a fazer parte do contexto social, da rotina e até de uma pequena recompensa durante um dia cansativo.
Nosso cérebro aprende essas associações.
A visão de uma comida, seu cheiro, a embalagem, uma propaganda ou até o horário em que costumamos consumi-la podem funcionar como pistas. Estudos mostram que a exposição a sinais associados aos alimentos pode aumentar o desejo de comer e influenciar o comportamento alimentar, inclusive em pessoas que não estão fisicamente famintas. Uma meta-análise que reuniu 45 estudos e 3.292 participantes encontrou uma associação consistente entre reatividade a pistas alimentares, desejo de comer e desfechos relacionados à alimentação e ao peso.
Quando o ambiente começa a participar da nossa alimentação
Isso ajuda a explicar por que falar de alimentação saudável apenas como uma questão de força de vontade pode ser insuficiente.
Vivemos em ambientes nos quais alimentos altamente palatáveis estão disponíveis praticamente o tempo todo. No trabalho, eles podem aparecer na cozinha, nas máquinas de venda, nas comemorações de aniversário, nas reuniões e até como uma forma de celebrar metas alcançadas.
Ao mesmo tempo, existe o estresse. Um dia difícil pode aumentar a busca por recompensas rápidas. Uma reunião que se estende pode alterar o horário das refeições. Poucas horas de sono podem mudar a disposição, a atenção e o comportamento alimentar. Aos poucos, comer pode assumir diferentes funções além de simplesmente responder à fome fisiológica.
É importante fazer uma distinção: sentir vontade de comer algo prazeroso não significa necessariamente ter um transtorno alimentar ou desenvolver obesidade. A fome hedônica é um fenômeno relacionado à motivação e à recompensa alimentar, e sua relação com o consumo efetivo e com o peso corporal é mais complexa do que uma relação direta de causa e efeito. Uma revisão da literatura, por exemplo, encontrou associação mais consistente entre o conceito e a motivação para consumir alimentos palatáveis do que com a quantidade efetivamente consumida ou o peso corporal.
Ainda assim, compreender esse mecanismo pode mudar a maneira como pensamos sobre saúde.
Os dados brasileiros ajudam a dimensionar o contexto. Segundo o Vigitel 2024, 62,6% dos adultos residentes nas capitais brasileiras e no Distrito Federal apresentavam excesso de peso. A frequência passou de 42,6% em 2006 para 62,6% em 2024. No mesmo período, a prevalência de obesidade passou de 11,8% para 25,7%.
Esses números não podem ser explicados por uma única causa. O próprio Ministério da Saúde reconhece a obesidade como uma condição multifatorial, influenciada por fatores biológicos, comportamentais, sociais e ambientais.
Por isso, talvez a pergunta mais interessante não seja “por que as pessoas não têm disciplina?”.
Talvez seja: que tipo de ambiente estamos construindo para que as pessoas façam suas escolhas todos os dias?
Essa pergunta é especialmente importante dentro das empresas.
Uma organização que deseja promover saúde não precisa controlar o que seus funcionários comem. Mas pode observar o ambiente que cria. Pode pensar nos horários das refeições, nas pausas, na disponibilidade de alimentos, na forma como celebra conquistas, na cultura de trabalhar sem parar e na maneira como aborda saúde e bem-estar.
Não se trata de transformar o escritório em uma clínica ou de criar uma lista de alimentos permitidos e proibidos. Trata-se de reconhecer que comportamento também acontece dentro de contextos.
E, quando entendemos que nosso cérebro responde não apenas à fome, mas também às pistas, recompensas e experiências associadas à comida, fica mais fácil abandonar a ideia de que alimentação saudável depende exclusivamente de força de vontade.
Saúde também é compreender o comportamento humano.
É justamente nesse ponto que a ciência pode contribuir para o ambiente corporativo: não oferecendo fórmulas prontas, mas ajudando pessoas e organizações a entenderem por que fazemos determinadas escolhas e como pequenos ajustes no ambiente podem favorecer decisões mais conscientes.
Levar esse conhecimento para empresas significa transformar uma conversa sobre dieta em uma conversa muito mais ampla sobre comportamento, saúde e qualidade de vida.
E é nesse espaço entre ciência e cotidiano que palestras e workshops podem ajudar equipes a enxergar a alimentação de uma maneira diferente: menos baseada em culpa e mais baseada em conhecimento, contexto e autonomia.

Bianca Vilela
bianca@biancavilela.com.br
BIANCA VILELA é autora do livro Respire, palestrante, mestre em fisiologia do exercício pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e produtora de conteúdo. Desenvolve programas de saúde em grandes empresas por todo o país há quase 20 anos. No Canal Saúde, Bianca fala sobre saúde no trabalho, produtividade e mudança de hábitos. Não deixe de visitar o Instagram: @biancavilelaoficial








